Mulheres que correm com os lobos

Este livro maravilhoso, escrito pela psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés desvenda o universo feminino através de contos, lendas e mitos.
Os conto mostram as ciladas do mundo moderno em que as mulheres se colocam, distanciando da verdadeira natureza selvagem, ou seja, da essência do feminino, gerando infelicidade, depressão, falta de prazer, rigidez, falta de criatividade…
A cada conto uma carapuça serve, rendendo muitas reflexões, são 19, então prepare-se! Este é um livro para ter, ler e reler.
Abaixo, “uma amostra” um conto deste livro:

A menina dos fósforos

Era uma vez uma menininha que não tinha nem pai nem mãe e que morava na floresta negra. Havia nas proximidades da floresta uma aldeia, e ela havia aprendido que podia comprar lá fósforos por um pêni inteiro. Se ela vendesse os fósforos em quantidade suficiente, podia comprar uma fatia de pão, voltar para sua meia-água na floresta e ali dormir com as únicas roupas que possuía.

Chegou o vento, e ficou muito frio. Ela não tinha sapatos, e seu casaco era tão fino que chegava a ser transparente. Seus pés há muito haviam passado do ponto de estar azuis de frio. Seus dedos dos pés estavam brancos, assim como os dedos das mãos e a ponta do nariz. Ela perambulava pelas ruas, implorando a desconhecidos que comprassem fósforos dela. Mas ninguém parava e ninguém prestava a mínima atenção à ela.

Por isso, uma noite ela se sentou dizendo para si mesma que tinha fósforos e que podia acender uma fogueira para se aquecer. Só que ela não tinha gravetos nem lenha. Resolveu acender os fósforos assim mesmo.

Ela se sentou com as pernas esticadas para a frente e acendeu o primeiro fósforo. Ao fazê-lo, pareceu-lhe que o frio e a neve desapareciam por completo. O que ela viu no lugar da neve rodopiante foi uma sala, uma linda sala com um enorme fogão de cerâmica verde-escuro, com uma porta de ferro trabalhada com arabescos. Tanto calor emanava do fogão que o ar chegava a ondular. Ela se aconchegou junto a ele e se sentiu no paraíso.

De repente, porém, o fogão se apagou, e ela estava mais uma vez sentada na neve, tremendo tanto que os ossos do seu rosto retiniam. E assim ela acendeu o segundo fósforo. A luz iluminou a parede do edifícioao lado de onde ela estava sentada, e ela subitamente pode ver através da parede. Na sala por trás da parede, havia uma toalha alvíssima sobre a mesa, e ali na mesa havia porcelana do branco mais branco. Numa travessa, um ganso, que acabava de ser preparado. E, exatamente quando ela esticou a mão para alcançar o banquete, a miragem desapareceu.

Ela estava novamente na neve, mas agora seus joelhos e quadris não doíam mais. Agora o frio abria caminho pelo seu torço e pelos seus braços com formigamentos e ardências, e por isso ela acendeu o terceiro fósforo.

E na chama do terceiro fósfora havia uma linda árvore de Natal, com uma belissima decoração de velas brancas, babados de rendas e maravilhosos enfeites de vidros, além de milhares e milhares de pequenos pontos de luz que ela não conseguia discernir direito.

Ela olhou para o alto dessa enorme árvore que crescia cada vez mais e avançava cada vez mais na direção do teto até que se transformou nas estrelas do céu lá em cima. Uma estrela atravessou brilhante o céu, e ela se lembrou de sua mãe ter lhe dito que, quando morre uma alma, uma estrela cai.

E do nada surgiu sua avó, tão carinhosa e delicada, e a menina se sentiu feliz ao vê-la. A avó levantou o avental, envolveu nele a criança, abraçou-a bem apertado, e a menina se sentiu contente.

Mas a avó começou a desaparecer. A menina ascendia cada vez mais fósforos para manter a avó consigo… cada vez mais fósforos para mantê-la consigo… cada vez mais… e elas começaram a subir juntas para o céu, onde não havia nem frio, nem fome, nem dor. E pela manhã, entre as casas, encontraram a menina imóvel e morta.

 

Agora trechos retirados da interpretação de Clarissa, sobre este conto:

Essa criança está num ambiente em que as pessoas não se importam com ela. Se você está num ambiente desses, saia daí. (…) O que a menina dos fósforos deve fazer? Se os seus instintos estivessem intactos, suas opções seriam inúmeras. (…) Quando as mulheres estão ao relento, no frio, elas costumam viver de fantasias em vez de ação. Fantasias desse tipo são o grande anestésico. Qualquer um que não apóie sua arte, sua vida, não é digno do seu tempo. (…)